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Do thrash das ruas de Guayaquil ao black metal das montanhas de Quito — uma cena que ninguém te contou
Falar de metal na América Latina sem mencionar o Equador é um erro que muita gente comete. Enquanto Brasil, Argentina e Chile acumulam cobertura, lá do alto dos Andes — e das cidades costeiras varridas pelo vento frio do Pacífico — uma cena underground ferve há mais de três décadas. Ambato, Guayaquil, Machala, Quito: cidades que produziram bandas tão sujas, rápidas e extremas quanto qualquer coisa que veio das capitais do metal latino. Sem apoio estatal, sem gravadora grande por perto, no osso mesmo. É hora de conhecer seis delas.
01 / 06 — ENTE
Death Metal · Fundada em 1991 · Quito, Pichincha
Se existe um nome que representa o death metal equatoriano de forma pioneira e sem interrupção, esse nome é Ente. A banda surgiu em Latacunga em 1991 como Obertura, se mudou para Quito em 1992, passou por uma radicalização sonora e adotou o nome atual em 1995 — e desde então não parou. A escolha do nome é precisa: "ente" significa entidade em espanhol, e a presença desse grupo dentro da cena extrema do Equador é exatamente isso, uma entidade que resiste. Guturas de impacto, riffs que vão do mid-paced pesado ao tremolo alucinado, e uma capacidade de explosão em palco que garantiu ao Ente shows ao lado de Suffocation, Cannibal Corpse e Napalm Death — além de turnês pelo Equador, Europa e Américas. A faixa de abertura de "Trastornado Instrumento de Sangre" começa com acordes ponderados antes de abrir o crânio em blast beat — boa introdução ao que a banda faz há três décadas. O álbum "Nacido Muerto" de 2019 prova que não há sinal de esgotamento. Pilar da cena extrema andina, sem discussão.
Ouçam: Trastornado Instrumento de Sangre (Música Híbrida, 2012)
02 / 06 — TOTAL DEATH
Doom / Death Metal · Fundada em 1991 · Quito, Pichincha
Contemporânea do Ente e igualmente veterana, o Total Death é uma das bandas mais longevas do Equador — mais de trinta anos de tragédia e sofrimento andino, nas palavras deles. Nascida em Quito em 1991 no território do black/death cru, a banda foi incorporando camadas de doom e death melódico ao longo dos anos, ganhando uma dimensão emocional que vai além do peso físico das guitarras. As letras nunca foram confortáveis: ódio, tristeza, desespero, as lutas internas do cotidiano latino-americano. O EP "Olvida" de 2014 foi gravado no México, masterizado no Fascination Street Studios por Jens Bogren — crédito que aparece em discos do Opeth, Dimmu Borgir e Architects. Que o Total Death tenha chegado lá, partindo de Quito sem estrutura de grande gravadora, é uma declaração sobre o comprometimento dessa banda. "El Rostro Que Llevamos Dentro" (2018) é a entrada mais acessível da discografia — acessível no sentido de que você consegue ouvir sem ser destruído na primeira escutada.
Ouçam: El Rostro Que Llevamos Dentro (Sun Empire Productions, 2018)
03 / 06 — PROFECÍA
Thrash / Death Metal · Fundada em 1991 · Guayaquil, Guayas
Guayaquil produziu muita coisa boa — e o Profecía está no topo dessa lista. Formado por Erick Alava em 1991 mas funcionando de verdade a partir de 1994, a banda construiu carreira baseada em letras apocalípticas, futuristas e sociais que combinam com um estilo onde o thrash e o death se fundem sem cerimônia: velocidade cortante, voz rasgada, baixo que você sente no esterno. O demo "Anunciantes del Final" gravado no Zodiaco Records em 1997 foi o cartão de visita; o cassete "...Hacia el Armagedón" de 1999, com dez faixas de death/thrash agonizante, consagrou a banda como referência nacional. No mesmo ano, o Profecía dividiu palco com o Master de Paul Speckmann em Guayaquil — apresentação organizada pela Acero Magazine, que na época era o principal elo entre o underground local e o circuito internacional. Em 2000, a mídia equatoriana elegeu o Profecía como a melhor banda ao vivo do país. "VII Veces VII" de 2003 é o trabalho definitivo. "Oro Negro" é onde começar.
Ouçam: Oro Negro (Single, 2014)
04 / 06 — MORTUUM
Black / Death Metal · Fundada em 1996 · Atuntaqui, Imbabura
Atuntaqui não é Quito, não é Guayaquil. É uma cidade têxtil de poucos habitantes na província de Imbabura, a mais de 2.200 metros de altitude nos Andes. E de lá saiu o Mortuum — prova viva de que o underground equatoriano não tem endereço fixo e não precisa ter. Formados em 1996, a banda levou o black/death metal para dentro de uma realidade periférica da periferia, com letras sobre morte, satanismo e anticristianismo. O demo "Dominus Joseph" de 1997 esgotou 300 cópias em dois meses sem nenhuma estrutura de distribuição — só boca a boca e tape trading. O segundo demo "Dominus Mortuum" de 2000 deu escala nacional: a banda passou a tocar como suporte para o Masacre colombiano e o Estigma peruano, referências absolutas do metal extremo andino. A aparição no compilado "Ecuador Subterráneo II" ao lado de Legión, Mutilated Christ e Grimorium Verum é o registro histórico que merece. "Bajo el Manto de la Crueldad" de 2006 — nove faixas que mesclam doom com black/death — é o trabalho mais completo. Começa com peso e não alivia.
Ouçam: Bajo el Manto de la Crueldad (El Sonido del Metal, 2006)
05 / 06 — EUTANOS
Black Metal · Fundada em 2003 · Quito, Pichincha
O nome já funciona como manifesto: eutanásia sonora, execução deliberada, metal negro sem condescendência. O Eutanos surgiu em Quito em 2003 e é daquelas entidades que não precisam de palco grande para existir — existem porque precisam. Temáticas de depravação, morte e anticristianismo escrito na testa, som cru, produção lo-fi intencional. A banda foi parar no catálogo do Depressive Illusions Records ucraniano — um dos poucos selos do planeta que ainda opera como se o underground de fita cassete de 1994 nunca tivesse acabado. Não é cosmético: é compromisso. As participações em "Ecuador Subterraneo 3" (El Sótano Records, 2012) e "Global Domination Vol. 1" (No Remorse Records, 2014) com a faixa "Magnificent and Eternal Fire" mostram que a rede global de tape trading digital encontrou o Eutanos antes de qualquer algoritmo. "The Satan God" de 2014 é onde entrar — raw black metal sem concessão, sem polimento, exatamente do jeito que deve ser.
Ouçam: The Satan God (Depressive Illusions Records, 2014)
06 / 06 — ECUADOR CADÁVER
Death / Thrash Metal · Fundada em 2004 · Machala, El Oro
Machala fica no extremo sul do Equador, cidade portuária da província de El Oro — ouro no nome, violência na realidade. É daí que vem o Ecuador Cadáver, fundado em 2004 por Neo Apolion, baterista e mentor da banda. O nome não é provocação vazia: é tese. O país como cadáver, a violência estrutural como tema central, o anticristianismo como postura filosófica. As letras percorrem guerra, conflito interno equatoriano e blasfêmia com uma urgência que faz diferença — não soa como estética, soa como necessidade. O álbum de 2009 e o DVD "From Hell..." de 2010 (La Legión del Pentagono Records) são os registros físicos de uma banda que desde então participa de compilações como "True Metal Subversion" e circula via Kraser Productions. Detalhe que diz algo sobre a cena equatoriana: Neo Apolion é professor de literatura no ensino médio fora da banda. Metal como vocação, não como fuga. "Unholy Triarchy of the Ancient Covenant" de 2012 é a faixa de entrada.
Ouçam: Unholy Triarchy of the Ancient Covenant (Kraser Productions, 2012)
O Equador não precisa pedir licença para estar no mapa do metal extremo latino-americano. Ambato, Quito, Guayaquil, Machala, Atuntaqui — cidades que gestaram bandas com décadas de estrada, demos que circularam de mão em mão muito antes de qualquer streaming existir. A cena deles não foi construída com apoio estatal nem com gravadora grande: foi construída no osso, com fanzine, tape trading e vontade de existir. Se você ainda não conhecia nenhuma dessas seis bandas, o subsolo ficou um pouco maior pra você. Agora vai lá ouvir.
— Rickzera Underground
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