domingo, 7 de junho de 2026

Bandas Metal Uruguaias que merecem ser ouvidas

 





Ouça aqui.

O Uruguai é o país mais ignorado do metal latino-americano. Enquanto Brasil e Argentina ganham capas de zines e manchetes de festivais, Montevideo foi construindo em silêncio uma cena pesada, visceral e genuinamente underground que poucos de fora conhecem. Mas quem mergulhou sabe: daqui saíram bandas que tocaram com o Sarcófago, que correspondiam com o Mayhem em fita cassete e que gravaram o primeiro LP de heavy metal de toda a história do país em 1987, num teatro lotado na capital.

1 - Ácido
Heavy Metal Tradicional
Montevideo, UY. Formada 1981.

Antes de Alvacast, antes de Chopper, antes de qualquer coisa que você possa chamar de cena metal uruguaia, havia o Ácido. Fundados em 1981 por Juan "El Perro" Acuña com seu irmão Danny e o primo Bill, eles são os pioneiros absolutos do metal no Uruguai — e fizeram isso num período de ditadura militar, quando tocar com o cabelo longo já te garantia o olho da polícia na nuca.

🎧 Ouça: Al Ataque 2013 · Perro Andaluz Records · Heavy MetalPioneiro.o


2 - Inner Sanctvm
Black / Death / Thrash Metal
Montevideo, UY. Formada 1989.


Inner Sanctvm — a grafia com "v" no lugar do "u" já diz tudo sobre a postura da banda — é provavelmente a banda uruguaia que mais chegou perto de uma reputação internacional real durante os anos 90. Fundada em 1989 em Montevideo por Heber W. Hammer, com raízes no Melkor Morgoth (1986), a banda cresceu para incluir Anton Reisenegger (guitarras e vocais), Francisco Martín (baixo) e Álvaro García (bateria, ex-Angkor Vat).

O som era uma mistura incendiária de black, death e thrash do velho estilo — produção suja, intensidade total, atmosfera sufocante. Eles viajaram ao Chile para tocar com o Sarcófago e gravar o primeiro álbum completo, "Frozen Souls". As resenhas de zines europeus começaram a chegar, celebrando a abordagem única da banda. O reconhecimento internacional foi real: a música circulou entre colecionadores via tape trading e a banda apareceu em compilações fora do Uruguai. A história do Inner Sanctvm é a prova de que Montevideo tinha material tão bom quanto qualquer cena emergente do mundo naquela época.

🎧 Ouç: :Frozen Souls 1994 ·Independente.e



3 - Chopper
Heavy Metal / Groove Metal
Montevideo, UY. Formada 1989.


Se Ácido foi o lado polido do heavy metal uruguaio dos anos 80, o Chopper foi a navalha. Surgida em 1989 em Montevidéu com Fabián Furtado (voz), Federico Sanguinetti (guitarra), Luis "Peruano" D'Angelo (baixo) e Leonardo Rodríguez (bateria), a banda redefiniu o peso e o poder de convocatória do metal no país. O disco de estreia homônimo, Chopper (1993, Top Records), ainda hoje é um dos álbuns referenciais do gênero em território nacional — começa com um riff que lembra o Pantera em "Siendo Como Soy" e não afrouxa um segundo.

O segundo álbum, Sangrando (1997, Ayuí/Tacuabé), é considerado por muitos um pilar fundamental da história do metal uruguaio. Após anos de pausa, a banda retornou para shows históricos em 2013 e gravou o aclamado Hechos Consumados (2014, Bizarro Records) — que ganhou o Prêmio Graffiti 2015 de melhor álbum de heavy metal. Em 2020 veio Ecos de Destruição Chopper é, sem hipérbole, o nome mais importante da segunda geração do metal uruguaio.

🎧 Ouça: Chopper 1993 TopRecords.s

4 - ReyToro
Heavy Metal / Rock Pesado
Montevideo, UY. Formada 1998.

A conexão humana mais curiosa da cena metal uruguaia: o ReyToro foi fundado em 1998 por Fabián Furtado — o mesmo vocalista do Chopper — com Norberto Arriola (guitarra), Enzo Broglia (baixo) e Fernando Alfaro (bateria). Se o Chopper era a navalha, o ReyToro é o martelo. Um projeto diferente, mas igualmente visceral, que explora o heavy metal e o rock pesado em castelhano com uma identidade sonora própria e letras que falam da vida real em Montevidéu.

O debut homônimo ReyToro I (2003) foi apenas o começo. II (2008) e III (2015) expandiram o universo da banda, com riffs pesados, melodias que grudam e a voz inconfundível de Furtado no comando. Em 2020 veio o EP Comarrexxx. A banda representa a continuidade viva da tradição do heavy metal de Montevideo na era contemporânea — menos underground do que seus antecessores dos anos 80, mas com a mesma disposição para fazer o pescoço doer.

🎧 Ouça: ReyToroII 2008


5 - Cuchilla Grande
Metal Criollo / Folk Metal
Montevideo, UY. Formada 1996.

Nenhuma outra banda desta lista soa tão especificamente uruguaia quanto o Cuchilla Grande. Fundada em 1996 por Diego "Digo" Petru, a banda se autodenomina "Corsários de Artigas" — uma referência direta ao herói nacional José Artigas — e pratica o que chamam de Metal Criollo: heavy metal de raiz com letras profundamente identificadas com o gauchismo rioplatense, a tradição rural, o artiguismo, a terra e a pobreza dos campos do Uruguai. É único. Não tem igual na cena latino-americana.

A primeira formação incluía Miguel Zorrilla (guitarra), Gabriel Tesija (baixo) e Oscar "el Brujo" (bateria). Ao longo dos anos, o Cuchilla Grande construiu uma discografia artesanal e leal a um público que os vê como mais do que uma banda — como uma afirmação de identidade. A relação de amizade com o Almafuerte argentino (a banda de Ricardo Iorio) chegou a render covers: os argentinos gravaram faixas do Cuchilla Grande. Se você quer entender o metal uruguaio em suas raízes mais profundas — históricas, geográficas, humanas —, este é o nome.

🎧 Ouça: CuchillaGrande 2014.4


A cena metal do Uruguai nunca vai encher um Wacken. Mas ela tem o que muitas cenas grandes perderam faz tempo: autenticidade, urgência e memória. Estas dez bandas são a prova. Se você conhecia alguma, ótimo. Se não conhecia nenhuma, comece agora — e mande no comentário qual te pegou mais.

— Rickzera Underground · Metal Latino-Americano Sem Filtro —

Rickzera Underground
Cena Metal Latino-Americana · Fontes: Metal Archives (Encyclopaedia Metallum) · Last.fm · Cooltivarte · Headbangers Latin America


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Bandas Do Equador Que Fazem o Equador Soar Metal

 







Playlist Spotify: Ouça aqui

Do thrash das ruas de Guayaquil ao black metal das montanhas de Quito — uma cena que ninguém te contou


Falar de metal na América Latina sem mencionar o Equador é um erro que muita gente comete. Enquanto Brasil, Argentina e Chile acumulam cobertura, lá do alto dos Andes — e das cidades costeiras varridas pelo vento frio do Pacífico — uma cena underground ferve há mais de três décadas. Ambato, Guayaquil, Machala, Quito: cidades que produziram bandas tão sujas, rápidas e extremas quanto qualquer coisa que veio das capitais do metal latino. Sem apoio estatal, sem gravadora grande por perto, no osso mesmo. É hora de conhecer seis delas.


01 / 06 — ENTE

Death Metal · Fundada em 1991 · Quito, Pichincha

Se existe um nome que representa o death metal equatoriano de forma pioneira e sem interrupção, esse nome é Ente. A banda surgiu em Latacunga em 1991 como Obertura, se mudou para Quito em 1992, passou por uma radicalização sonora e adotou o nome atual em 1995 — e desde então não parou. A escolha do nome é precisa: "ente" significa entidade em espanhol, e a presença desse grupo dentro da cena extrema do Equador é exatamente isso, uma entidade que resiste. Guturas de impacto, riffs que vão do mid-paced pesado ao tremolo alucinado, e uma capacidade de explosão em palco que garantiu ao Ente shows ao lado de Suffocation, Cannibal Corpse e Napalm Death — além de turnês pelo Equador, Europa e Américas. A faixa de abertura de "Trastornado Instrumento de Sangre" começa com acordes ponderados antes de abrir o crânio em blast beat — boa introdução ao que a banda faz há três décadas. O álbum "Nacido Muerto" de 2019 prova que não há sinal de esgotamento. Pilar da cena extrema andina, sem discussão.

Ouçam: Trastornado Instrumento de Sangre (Música Híbrida, 2012)


02 / 06 — TOTAL DEATH

Doom / Death Metal · Fundada em 1991 · Quito, Pichincha

Contemporânea do Ente e igualmente veterana, o Total Death é uma das bandas mais longevas do Equador — mais de trinta anos de tragédia e sofrimento andino, nas palavras deles. Nascida em Quito em 1991 no território do black/death cru, a banda foi incorporando camadas de doom e death melódico ao longo dos anos, ganhando uma dimensão emocional que vai além do peso físico das guitarras. As letras nunca foram confortáveis: ódio, tristeza, desespero, as lutas internas do cotidiano latino-americano. O EP "Olvida" de 2014 foi gravado no México, masterizado no Fascination Street Studios por Jens Bogren — crédito que aparece em discos do Opeth, Dimmu Borgir e Architects. Que o Total Death tenha chegado lá, partindo de Quito sem estrutura de grande gravadora, é uma declaração sobre o comprometimento dessa banda. "El Rostro Que Llevamos Dentro" (2018) é a entrada mais acessível da discografia — acessível no sentido de que você consegue ouvir sem ser destruído na primeira escutada.

Ouçam: El Rostro Que Llevamos Dentro (Sun Empire Productions, 2018)


03 / 06 — PROFECÍA

Thrash / Death Metal · Fundada em 1991 · Guayaquil, Guayas

Guayaquil produziu muita coisa boa — e o Profecía está no topo dessa lista. Formado por Erick Alava em 1991 mas funcionando de verdade a partir de 1994, a banda construiu carreira baseada em letras apocalípticas, futuristas e sociais que combinam com um estilo onde o thrash e o death se fundem sem cerimônia: velocidade cortante, voz rasgada, baixo que você sente no esterno. O demo "Anunciantes del Final" gravado no Zodiaco Records em 1997 foi o cartão de visita; o cassete "...Hacia el Armagedón" de 1999, com dez faixas de death/thrash agonizante, consagrou a banda como referência nacional. No mesmo ano, o Profecía dividiu palco com o Master de Paul Speckmann em Guayaquil — apresentação organizada pela Acero Magazine, que na época era o principal elo entre o underground local e o circuito internacional. Em 2000, a mídia equatoriana elegeu o Profecía como a melhor banda ao vivo do país. "VII Veces VII" de 2003 é o trabalho definitivo. "Oro Negro" é onde começar.

Ouçam: Oro Negro (Single, 2014)


04 / 06 — MORTUUM

Black / Death Metal · Fundada em 1996 · Atuntaqui, Imbabura

Atuntaqui não é Quito, não é Guayaquil. É uma cidade têxtil de poucos habitantes na província de Imbabura, a mais de 2.200 metros de altitude nos Andes. E de lá saiu o Mortuum — prova viva de que o underground equatoriano não tem endereço fixo e não precisa ter. Formados em 1996, a banda levou o black/death metal para dentro de uma realidade periférica da periferia, com letras sobre morte, satanismo e anticristianismo. O demo "Dominus Joseph" de 1997 esgotou 300 cópias em dois meses sem nenhuma estrutura de distribuição — só boca a boca e tape trading. O segundo demo "Dominus Mortuum" de 2000 deu escala nacional: a banda passou a tocar como suporte para o Masacre colombiano e o Estigma peruano, referências absolutas do metal extremo andino. A aparição no compilado "Ecuador Subterráneo II" ao lado de Legión, Mutilated Christ e Grimorium Verum é o registro histórico que merece. "Bajo el Manto de la Crueldad" de 2006 — nove faixas que mesclam doom com black/death — é o trabalho mais completo. Começa com peso e não alivia.

Ouçam: Bajo el Manto de la Crueldad (El Sonido del Metal, 2006)


05 / 06 — EUTANOS

Black Metal · Fundada em 2003 · Quito, Pichincha

O nome já funciona como manifesto: eutanásia sonora, execução deliberada, metal negro sem condescendência. O Eutanos surgiu em Quito em 2003 e é daquelas entidades que não precisam de palco grande para existir — existem porque precisam. Temáticas de depravação, morte e anticristianismo escrito na testa, som cru, produção lo-fi intencional. A banda foi parar no catálogo do Depressive Illusions Records ucraniano — um dos poucos selos do planeta que ainda opera como se o underground de fita cassete de 1994 nunca tivesse acabado. Não é cosmético: é compromisso. As participações em "Ecuador Subterraneo 3" (El Sótano Records, 2012) e "Global Domination Vol. 1" (No Remorse Records, 2014) com a faixa "Magnificent and Eternal Fire" mostram que a rede global de tape trading digital encontrou o Eutanos antes de qualquer algoritmo. "The Satan God" de 2014 é onde entrar — raw black metal sem concessão, sem polimento, exatamente do jeito que deve ser.

Ouçam: The Satan God (Depressive Illusions Records, 2014)


06 / 06 — ECUADOR CADÁVER

Death / Thrash Metal · Fundada em 2004 · Machala, El Oro

Machala fica no extremo sul do Equador, cidade portuária da província de El Oro — ouro no nome, violência na realidade. É daí que vem o Ecuador Cadáver, fundado em 2004 por Neo Apolion, baterista e mentor da banda. O nome não é provocação vazia: é tese. O país como cadáver, a violência estrutural como tema central, o anticristianismo como postura filosófica. As letras percorrem guerra, conflito interno equatoriano e blasfêmia com uma urgência que faz diferença — não soa como estética, soa como necessidade. O álbum de 2009 e o DVD "From Hell..." de 2010 (La Legión del Pentagono Records) são os registros físicos de uma banda que desde então participa de compilações como "True Metal Subversion" e circula via Kraser Productions. Detalhe que diz algo sobre a cena equatoriana: Neo Apolion é professor de literatura no ensino médio fora da banda. Metal como vocação, não como fuga. "Unholy Triarchy of the Ancient Covenant" de 2012 é a faixa de entrada.

Ouçam: Unholy Triarchy of the Ancient Covenant (Kraser Productions, 2012)


O Equador não precisa pedir licença para estar no mapa do metal extremo latino-americano. Ambato, Quito, Guayaquil, Machala, Atuntaqui — cidades que gestaram bandas com décadas de estrada, demos que circularam de mão em mão muito antes de qualquer streaming existir. A cena deles não foi construída com apoio estatal nem com gravadora grande: foi construída no osso, com fanzine, tape trading e vontade de existir. Se você ainda não conhecia nenhuma dessas seis bandas, o subsolo ficou um pouco maior pra você. Agora vai lá ouvir.

— Rickzera Underground

Entrevista COBENTRICE: Voz do Brutal Death Metal Colombiano

 RICKZERA UNDERGROUND, entrevista, arquivo nº002.  Banda: COBENTRICE.  País de origem: Colômbia.  Cidade: Pereira.  Gênero: Brutal Death Met...