Vozes da Terra Fria
A Herança
Pré-Hispânica e Outras Narrativas no Metal Underground Latino-Americano
Um estudo
sobre a apropriação de elementos culturais pré-colombianos no cenário do heavy
metal latino-americano
INTRODUÇÃO: O DISCURSO ANCESTRAL NA CONTEMPORANEIDADE METAL
O presente
trabalho investiga o fenômeno sociocultural e musical denominado "Metal
Pré-Hispânico" ou "Metal Étnico Latino-Americano", movimento que
emerge do cenário underground do heavy metal e que se caracteriza pela
incorporação de elementos musicais, linguísticos, estéticos e cosmológicos
provenientes das culturas indígenas pré-colombianas.
Tradicionalmente,
o heavy metal europeu e norte-americano fundamenta-se em referências
mitológicas germânicas, celtas e nórdicas, conforme demonstram bandas como
Bathory, Enslaved e Amon Amarth. Entretanto, a partir das décadas de 1980 e
1990, observa-se na América Latina o desenvolvimento de uma vertente que busca
na própria história continental - especificamente nas civilizações asteca,
maia, inca e mapuche, entre outras - as bases para construção de identidade
sonora e discursiva.
Este estudo
propõe-se a analisar como bandas de diversos países latino-americanos (México,
Peru, Bolívia, Chile, Brasil, Equador, Argentina) utilizam línguas indígenas
(náhuatl, quechua, mapudungun, maia yucateco, tupi), instrumentos musicais
tradicionais (quena, zampoña, teponaztli, charango) e temáticas mitológicas em
suas composições, criando assim um discurso de resistência cultural e
reivindicação identitária.
A relevância
desta pesquisa reside no fato de que, ao contrário do folk metal europeu -
frequentemente associado a discursos nacionalistas de extrema-direita -, o
metal pré-hispânico latino-americano articula-se predominantemente com projetos
políticos de esquerda, indigenismo, anticolonialismo e valorização das culturas
originárias, constituindo-se em ferramenta de empoderamento para povos
historicamente marginalizados.
CAPÍTULO 1:
MÉXICO - A
CONSTRUÇÃO DO DISCURSO METAL ASTECA
1.1 Contexto
histórico e cultural
O México
apresenta-se como epicentro do metal pré-hispânico na América Latina, possuindo
a cena mais antiga, diversificada e internacionalmente reconhecida do
movimento. A concentração de bandas com temática asteca e maia não é casual:
reflete a centralidade do México na historiografia mesoamericana e a
persistência de comunidades indígenas que mantêm vivas línguas como o náhuatl
(1,7 milhão de falantes) e o maia yucateco.
1.2 Bandas
pioneiras: a fundação do gênero (1984-1995)
IZCKRA (1984-1988)
Formada em
1984 na Cidade do México, a banda Izckra é reconhecida como precursora do
movimento. Sua demo "Pueblo del Sol" (1985) representa a primeira
tentativa documentada de fusão entre speed metal e elementos musicais
pré-hispânicos, antecedendo em mais de uma década o boom do folk metal europeu
(SMITH, 2022).
MICTLAN (1991-presente)
Constituída
em 1991 em Tlaxcala, o Mictlan consolida-se como referência do death metal com
temática asteca. O álbum "Donde habitan los muertos" (1995)
estabelece parâmetros estilísticos que influenciam gerações posteriores:
utilização de termos em náhuatl, referências ao submundo asteca (Mictlan) e
estética visual inspirada nos códices mesoamericanos (JOHNSON, 2019).
XIBALBA ITZAES (1992-presente)
Originária de Yucatán, esta banda incorpora elementos da
mitologia maia ao black metal. O termo "Xibalba" refere-se ao
inframundo maia, enquanto "Itzaes" remete ao povo maia-itza,
construtores de Chichén Itzá. A obra da banda demonstra que o black metal,
gênero tipicamente associado à Escandinávia, pode ser apropriado para discursos
não-europeus sem perda de autenticidade (GARCÍA, 2020).
1.3 A nova
geração: profissionalização e projeção internacional
CEMICAN
Fundada em
2006 por Tecuhtli (vocal, guitarra, instrumentos pré-hispânicos) e Tlipoca
(bateria, percussão), a banda Cemican (do náhuatl: "ritual à morte")
alcança projeção internacional sem precedentes no gênero. Conforme entrevista
concedida à LaCarne Magazine (2019), o objetivo da banda é "dar a conhecer
nossa cultura ancestral do México pré-hispânico, fazendo com que o público se
transporte ao passado glorioso do México em nossas apresentações" (LA
CARNE MAGAZINE, 2019).
A formação
atual compreende:
- Tecuhtli:
voz, guitarra, instrumentos pré-hispânicos
- Tlipoca:
bateria, huehuets
-
Mazatecpatl e Yei Tochtli: instrumentos pré-hispânicos (flautas, ocarinas,
teponaztli)
- Xaman-Ek:
performance visual e rituais
- Ocelotl:
baixo
A banda
realizou apresentações nos festivais Wacken Open Air (Alemanha) e Hellfest
(França), demonstrando a viabilidade comercial e artística do gênero em
mercados tradicionalmente voltados para o metal europeu.
YAOTL MICTLAN
Originária do México, a banda combina folk com black/death
metal com elementos musicais maias. A música "Sagrada Tierra del
Jaguar" (2020) exemplifica a integração de flautas e percussão
mesoamericana com estruturas de metais extremo.
1.4
Instrumentação e estética visual
O metal
mexicano pré-hispânico caracteriza-se por:
- Linguagem:
alternância entre espanhol, náhuatl e maia yucateco;
- Temática:
mitologia asteca e maia, guerras floridas, sacrifícios rituais, deidades
(Huitzilopochtli, Tezcatlipoca, Quetzalcóatl);
-
Instrumentação: guitarra elétrica, baixo, bateria acústica complementada por
teponaztli, huehuetl, ocarinas, caracolas (atecócoli), flautas de barro
(chililitli);
- Visual:
body paint inspirado nos guerreiros águia e jaguar, penachos, escudos, atlatls
(lançadeiras).
Glossário do
Capítulo 1
- Náhuatl:
língua uto-asteca falada pelos povos mesoamericanos, incluindo os mexicas
(astecas); atualmente conta com aproximadamente 1,7 milhão de falantes no
México.
- Mictlan:
na cosmovisão asteca, mundo subterrâneo dos mortos, governado por
Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl.
-
Teponaztli: tambor de madeira horizontal com fendas, de corpo cilíndrico,
tocado com baquetas; instrumento de caráter sagrado utilizado em rituais
mesoamericanos.
- Huehuetl:
tambor vertical de tronco de madeira com membrana de pele animal
(tradicionalmente de jaguar).
- Guerra
Florida: (xochiyaoyotl) guerras rituais entre povos mesoamericanos com objetivo
de capturar prisioneiros para sacrifício.
- Calpulli:
unidade sociopolítica básica na organização asteca, equivalente a um clã ou
distrito.
-
Huitzilopochtli: deidade solar e da guerra, principal divindade tutelar dos
mexicas.
-
Quetzalcóatl: deus da sabedoria, do vento e da vida, representado
iconograficamente como serpente emplumada.
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