domingo, 5 de abril de 2026

COGUMELO RECORDS: MAIS DE 40 ANOS DE FÚRIA METAL





Quando o submundo de Belo Horizonte engoliu o mundo


 Por Rickzera | 05 de abril de 2026 


Há algo de profundamente insano em tentar separar a história do metal extremo mundial da história de uma loja de discos instalada em Belo Horizonte. Como se fosse possível dissociar o nascimento do death metal europeu, a segunda onda do black metal norueguês e a brutalidade sul-americana de um casal de mineiros que, em 12 de agosto de 1980, resolveu vender vinil na Avenida Augusto de Lima. Mas essa é a história da  Cogumelo Records  — e tentar contá-la em poucas linhas é um sacrilégio comparável a tocar *I.N.R.I.* em volume baixo.


A Cogumelo não é apenas uma gravadora. É um casulo. É o ponto de convergência onde o thrash metal brasileiro deixou de ser um ruido de garagens e se tornou um fenômeno global. É o selo que fez Fenriz, do Darkthrone, declarar que "ou você compra *I.N.R.I.* ou morre". É o lugar onde Euronymous, antes de se tornar o mártir do black metal, trocava cartas obcecadas com Wagner Lamounier. É, sem exagero histórico, o berço do metal extremo mundial .


 O Nascimento do Monstro (1980-1985)


Tudo começou com  João Eduardo de Faria Filho  e  Creusa Pereira de Faria  — ou simplesmente João Eduardo e  Pat , como é conhecida por gerações de headbangers. Em 1980, eles abriram uma loja de discos que vendia de jazz a MPB. Mas havia algo podre no ar de Belo Horizonte. Algo que cheirava a mofo, cerveja barata e desespero juvenil.


O boom veio quando o casal começou a fazer viagens épicas a São Paulo para trazer novidades fonográficas. Ao voltarem a BH, encontravam multidões esperando na calçada. Foi quando perceberam: estavam lidando com uma horda sedenta por metal. A Cogumelo migrou naturalmente para o rock pesado, tornando-se um point sagrado onde metaleiros se aglomeravam para ouvir discos, trocar informações e, segundo relatos épicos da época, levar chuva de objetos — e ocasionalmente mijo — jogados pelos vizinhos irritados das janelas dos prédios .


Foi nessa efervescência que  Paulo Júnior  (então empregado da loja e baixista de uma banda desconhecida chamada Sepultura), junto com Vladimir e Guilherme do Chakal, plantou a semente. Por que não gravar as bandas da cidade? A ideia inicial era lançar um álbum da Overdose. Mas Vladimir sugeriu algo mais letal: um split. Nasceu assim, em 1985, o selo Cogumelo Records com o lançamento do histórico  *Bestial Devastation / Século XX *, dividido entre  Sepultura  e  Overdose  .


Gravado nos  JG Studios  em apenas oito canais, o disco vendeu mil cópias no primeiro mês. Parece pouco? Para uma cena inexistente comercialmente, era um holocausto nuclear. Até 1989, quando saiu de catálogo, havia vendido cerca de 20 mil unidades — números astronômicos para o underground .


 A Era dos Tratados de Guerra (1986-1987)


Se 1985 foi o Big Bang, 1986 e 1987 foram a expansão do universo em velocidade terminal. A Cogumelo não apenas gravava bandas; ela criava um ecossistema. Em 1986, veio  *Warfare Noise I *, coletânea split que reunia  Chakal ,  Mutilator ,  Sarcófago  e  Holocausto . O disco serviu como estreia oficial do Sarcófago — e foi a faísca que incendiou os padrões de brutalidade mundiais .


O Sarcófago de  Wagner "Antichrist" Lamounier ,  Zéder "Butcher" ,  Geraldo "Incubus"  e  Eduardo "D.D. Crazy"  não soava como nada antes ouvido. O uso extensivo de *blast beats* por D.D. Crazy tornou-o um pioneiro mundial do gênero. Mas foi em 1987, com o lançamento de  *I.N.R.I. *, que a Cogumelo selou seu lugar no Olimpo do metal. O álbum, originalmente lançado em fita K7 com capas xerocadas, foi reeditado em vinil pela Cogumelo (catálogo COG 007) e tornou-se um marco na evolução do black metal .


A influência foi planetária. Fenriz incluiu a faixa "Satanic Lust" em sua compilação *The Best of Old-School Black Metal*. Euronymous, guitarrista do Mayhem, trocava correspondências obsessivas com Lamounier, querendo que todas as bandas de black metal norueguês se modelassem à imagem visceral do Sarcófago — correntes, sujeira, sangue e miséria. Satyricon, Impaled Nazarene e incontáveis outras bandas escandinavas citam o disco como influência fundamental .


Mas 1987 não foi apenas o ano do Sarcófago. Foi também o ano em que:


-  Mutilator  lançou  *Immortal Force * (COG 006), thrash/death metal cru que consolidou a banda como uma das "Quatro Amazonas do Apocalipse" mineiras ;

-  Sepultura  gravou  *Schizophrenia * (COG 009), o primeiro álbum com  Andreas Kisser  nos vocais e guitarra, gravado em 16 canais no JG Studios — uma evolução técnica assassina que faria a Roadrunner Records assinar com a banda sem nunca tê-los visto ao vivo .


A Cogumelo havia se tornado uma máquina de guerra fonográfica. Belo Horizonte deixou de ser apenas uma cidade do interior brasileiro para se tornar a Meca do metal extremo.


 Sangue, Suor e Vinil: A Cena de BH


O que aconteceu em Belo Horizonte nos anos 80 não foi acidente geográfico. Foi engenharia social por necessidade. A Cogumelo oferecia algo que não existia: estrutura. O estúdio JG, os equipamentos alugados, a distribuição, os shows organizados pelo selo (incluindo o histórico festival de 1986 no Esporte Clube Ginástico que reunia Mutilator, Sepultura e Overdose, documentado no DVD dos 40 anos da gravadora) .


A loja física funcionava como um *hub* criativo. Ali,  João Gordo  (futuro vocalista dos  Ratos de Porão ) trabalhava ao lado de  Paulo Júnior  e membros do Chakal. Ali se firmou o que um estudo acadêmico descreveu como os "Três T" da cena criativa: talento, tecnologia e tolerância — embora, no caso da Cogumelo, a tolerância fosse apenas para quem aguentasse decibel extremo .


A gravadora expandiu o raio de ação. Lançou  The Mist  (com ex-membros do Sarcófago),  Vulcano ,  Dorsal Atlântica . Licenciou discos para o exterior — Sarcófago saiu pela Music For Nations na Europa, Sepultura pela Roadrunner nos EUA. Quando *Schizophrenia* e *Morbid Visions* foram licenciados, venderam meio milhão e 300 mil cópias respectivamente fora do Brasil .


 Das Cinzas ao Legado Eterno


Os anos 90 trouxeram desafios. A indústria fonográfica entrou em crise, mas a Cogumelo persistiu. João Gordo, agora nos Ratos de Porão, gravou *Cada Dia Mais Sujo e Agressivo* pelo selo. A banda  Pato Fu  — sim, Pato Fu — passou pela Cogumelo, provando que o selo nunca se limitou a gêneros, mas sim ao espírito underground .


Em 2000, a coletânea *Cogumelo 20 Anos* selou o legado: Sepultura, Overdose, Dorsal Atlântica, Sarcófago, The Mist, Sextrash, Mutilator, Witchhammer, Chakal, Ratos de Porão, Vulcano, Eminence, Siegrid Ingrid — um *who's who* do metal pesado nacional .


Os documentários *Ruído das Minas* (2009) e o não-oficial *Cogumelo 35 Anos* (2015) tentaram capturar a essência, mas foi o  *Catálogo Cogumelo 40 Anos *, lançado em 2023, que cravou o legado em pedra. Bilíngue, com diagramação arrojada, trazendo recortes de artigos históricos (incluindo materiais da própria Rock Brigade) e o DVD inédito de 1986, o livro é a bíblia definitiva do metal brasileiro .


 O Fim dos Tempos (Ou Não)


Hoje, a loja física ainda resiste na Avenida Augusto de Lima, 555, Loja 29, no centro de Belo Horizonte. O selo continua lançando sangue novo —  Drowned ,  Hammurabi ,  Hatefulmurder ,  Nervochaos ,  Tray of Gift  — enquanto relança os clássicos em vinil e CD remasterizados .


João Eduardo e Pat Pereira seguem nos comandos, resistindo a crises econômicas, mudanças na indústria e a inevitável obsolescência do formato físico. Como disse o próprio João Eduardo em entrevista: *"Passamos por altos e baixos, como todas as empresas passam no Brasil. A gente está aí até hoje por causa de nossa dedicação ao metal nacional"* .


A Cogumelo Records não é uma gravadora. É um monumento vivo. É a prova de que quatro garotos de BH com instrumentos sujos, uma loja de discos insana e uma visão apocalíptica podem reescrever a história da música mundial. Enquanto houver um vinil girando em algum lugar do planeta tocando *Desecration of Virgin* ou *Troops of Doom*, a Cogumelo estará viva — e o mundo continuará sentindo o peso das Minas Gerais sobre suas costas frágeis.





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