*Além do óbvio, descubra o underground lusófono que mantém a chama do black metal em nossa língua*
O black metal é um gênero profundamente ligado à identidade. E nada é mais identitário do que cantar na própria língua. Longe dos clichês nórdicos, essas cinco bandas provam que o português tem lugar no extremo.
1. MIASTHENIA 🇧🇷 (Brasília, DF)
Formada em 1994 em Brasília, o Miasthenia é um dos nomes mais respeitados do black metal nacional — e um dos mais únicos. Três dos quatro membros são mulheres: Susane Hécate (vocal/teclados), Aletéa Cosso (baixo/violão) e Lith (bateria), o que já a coloca em posição de destaque em um gênero historicamente dominado por homens. A banda surgiu no Distrito Federal, longe dos grandes polos do metal brasileiro (São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro), construindo sua identidade de forma autônoma e sem as influências diretas das cenas mais estabelecidas.
O que diferencia o Miasthenia é a linguagem: cantam em português, tupi e latim, uma escolha deliberada de valorização das raízes ameríndias em contraposição ao inglês hegemônico do metal extremo. As letras exploram história pré-colombiana, mitologia da América Latina e resistência indígena, temas raramente abordados no black metal brasileiro da época. O álbum "Espíritos Rupestres" (2001) é considerado um marco do pagan metal brasileiro, misturando agressão sonora com reverência aos povos originários. A banda manteve-se ativa por mais de duas décadas, resistindo às mudanças do mercado e à invisibilidade de projetos independentes fora do eixo Rio-São Paulo.
Por que ouvir: Miasthenia é essencial para quem busca black metal com identidade sul-americana genuína, longe das imitações nórdicas ou europeias. É uma das poucas bandas do gênero no Brasil a colocar mulheres em posição de criação e a tratar de temática indígena com seriedade, sem cair no exotismo ou no apropriacionismo. Se você curte Ulver primordial, Enslaved folk ou busca metal com conteúdo histórico-cultural, o Miasthenia é referência obrigatória do underground nacional.
2. VELHO 🇧🇷 (Duque de Caxias, RJ)
Banda de black metal oriunda da baixada fluminense, o Velho representa o underground carioca que canta em português em tempos de hegemonia anglófona. Formada em meados dos anos 2000 na cidade de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, a banda surgiu em um contexto de pouquíssimas oportunidades para o metal extremo na periferia fluminense. O nome carrega a carga do tempo, da resistência e da persistência — qualidades necessárias para manter um projeto de black metal independente no Brasil pré-digital, quando fitas K7 e trocas de demos ainda eram a única forma de circulação da música.
As letras em português exploram temas de misantropia urbana, decadência das cidades e espiritualidade ateu/niilista, longe das florestas e mitologias indígenas que dominam o black metal brasileiro contemporâneo. A banda raramente concede entrevistas e mantém uma postura de anonimato seletivo, o que alimenta a aura de mistério em torno de seus membros. Em uma cena onde o Rio de Janeiro é mais conhecido pelo hardcore e pelo rock de arena, o Velho é uma das poucas representações do black metal cru e urbano carioca, sobrevivendo na contramão tanto do mercado quanto das tendências estéticas do gênero.
Por que ouvir: O Velho é essencial para quem busca o black metal brasileiro mais sujo e autêntico — aquele que nasceu nas quebradas, longe de festivais patrocinados e produções polidas. É a prova de que o metal extremo existe e resiste nas periferias, sem precisar de mitologia exótica para justificar sua raiva. Se você curte Ildjarn, Bone Awl ou o lado mais cru do Sarcófago, o Velho é a porta de entrada para o underground carioca que o mainstream ignora.
3. KAATAYRA 🇧🇷 (Brasil)
Citada como "facilmente a melhor banda de Black Metal que surgiu nessa década" e "a melhor banda de metal brasileira" por fãs no Reddit . O Kaatayra é um projeto brasileiro de black metal atmosférico que canta em português (e às vezes em tupi).
A proposta é única: black metal ambiental com temática brasileira, florestas, entidades nativas e espiritualidade de matriz ameríndia. Discos como "Toda História pela Frente" e "Noites sem Lua" são essenciais.
Por que ouvir: Prova de que black metal em português pode ser inovador e de classe mundial.
4. ÌSINKÚ 🇧🇷 (Natal, RN)
Formada em 2018 em Natal, Rio Grande do Norte, o Ìsinkú é um projeto de black metal que explora as matrizes africanas e afro-brasileiras na música extrema. O nome vem do iorubá, língua falada por povos do oeste da África (atual Nigéria e Benim), e significa "morte" .
O iorubá é uma das línguas fundamentais das religiões de matriz africana no Brasil, como o Candomblé e a Umbanda. Ao adotar esse nome e cantar em português, a banda conecta o black metal com a diaspora africana, a escravidão transatlântica e a resistência negra no Brasil.
A proposta do Ìsinkú é afrocentrada: utiliza o black metal para discutir a violência histórica contra povos africanos, o racismo estrutural brasileiro e a espiritualidade afro-brasileira.
Por que ouvir: Uma das poucas bandas de metal no Brasil a explicitamente trabalhar com identidade negra e africana, ocupando um espaço de resistência dupla.
5. HERETICAE 🇧🇷 (Londrina, Paraná)
Banda de RABM (Red and Anarchist Black Metal) de Londrina, Paraná, o Hereticae é uma das vozes mais ativas do movimento antifascista na América Latina. O nome vem do latim e significa "herege": alguém que vai contra um credo ou sistema religioso estabelecido . O Hereticae une o som radical do black/death metal ao anticolonialismo, com letras em português que abordam luta de classes, anticapitalismo, anarquismo, resistência ao autoritarismo, luciferianismo e anti-imperialismo .
A banda se autodenomina "Metal Negro Anticolonialista" nas redes sociais . Seu álbum "Ecos do Atlântico" (2020) começa com uma citação de Karl Marx de "O Capital", deixando claro o posicionamento político desde a primeira nota . Em entrevista, declararam: "Em tempos onde nossas florestas são queimadas, nossos mares se afogam no óleo, e rios inteiros são soterrados junto de seus povos, lutar pela natureza é a coisa mais subversiva, radical e necessária que podemos fazer" . O Hereticae representa a vertente mais politicamente explícita do black metal brasileiro, transformando o gênero em ferramenta de denúncia social e teoria revolucionária.
Por que ouvir: Black metal com conteúdo político explícito, teoria marxista nas letras e sonoridade brutal. Raridade no cenário nacional.
📊 POR QUE O PORTUGUÊS NO BLACK METAL?
O black metal tradicional é associado ao inglês e aos idiomas nórdicos. Mas cantar em português é um ato de:
- Resistência cultural — contra a hegemonia anglófona
- Autenticidade — expressar raízes lusófonas
- Acessibilidade — o público brasileiro/português conectar com as letras
*Post dedicado ao underground lusófono que não abre mão da própria língua no extremo.* 🤘
Glossário:
*RABM - *Red and Anarchist Black Metal* — vertente política do black metal que combina ideologias de esquerda (socialismo, anarquismo, antifascismo) com a estética do gênero. Contrasta com o NSBM (National Socialist Black Metal) de extrema-direita.
*Pagan Metal - Subgênero que mistura black metal com temáticas neopagãs, mitologias pré-cristãs e folclore tradicional. No Brasil, frequentemente aborda religiosidades indígenas e afro-brasileiras.
*Demo - Gravação independente de baixo orçamento, geralmente a primeira de uma banda. No underground, demos em fita K7 são objetos de colecionador.
*Split - Disco dividido entre duas ou mais bandas, comum no underground para dividir custos de produção.
*Underground - Cena musical independente, fora do circuito comercial. No metal, caracteriza-se por produções autorais, distros independentes e troca de materiais entre fãs.
*Misantropia - Aversão à humanidade — tema recorrente no black metal tradicional, expresso em letras sobre isolamento, natureza e rejeição da sociedade moderna.
*Matriz Africana - Conjunto de práticas, crenças e tradições originárias da África, especialmente do oeste e centro do continente, que influenciaram a cultura brasileira (Candomblé, Umbanda, capoeira, etc.).
*Iorubá - Língua e etnia do oeste da África (principalmente Nigéria e Benim). No Brasil, fundamental para as religiões de matriz africana como Candomblé e Umbanda.
*Tupi - Tronco linguístico de povos indígenas que habitavam a costa brasileira no momento da chegada dos portugueses. Hoje em dia, língua em processo de revitalização.
*Lusófono - Que fala a língua portuguesa. Deriva de *Lusitânia*, nome romano da região de Portugal.
*Niilismo - Filosofia que nega valores e significados objetivos. No black metal, frequentemente expressa como rejeição de religiões, moralidades e estruturas sociais estabelecidas.
*Luciferianismo - Sistema de crenças que reverencia Lucifer não como diabo cristão, mas como símbolo de iluminação, liberdade e rebeldia contra autoridades espirituais.
*Anonimato seletivo - Prática de bandas que ocultam identidades dos membros, mantendo pseudônimos ou não revelando rostos. Comum no black metal para preservar privacidade e aumentar aura de mistério.
*Anticolonialismo - Movimento político e intelectual de resistência contra o colonialismo e suas heranças (racismo, exploração econômica, apagamento cultural). No metal, abordado por bandas que reivindicam identidades oprimidas.
*Diaspora africana - Dispersão forçada de povos africanos pelo mundo, principalmente devido ao tráfico negro transatlântico. No Brasil, resultou na formação da cultura afro-brasileira.
*Exotismo - Visão estereotipada e superficial de culturas não-ocidentais, tratando-as como "diferentes" ou "misteriosas" sem compreensão real. No metal, risco quando bandas abordam temáticas indígenas ou africanas sem profundidade.
*Apropriacionismo - Uso de elementos de uma cultura por membros de outra, especialmente quando há desequilíbrio de poder. Questão ética no metal quando bandas não-indígenas ou não-negras exploram essas simbologias.
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